segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Abaixando a máquina: o ato que tem vários significados no jornalismo brasileiro


A cena de Santiago Andrade abaixando a máquina devagar até deixá-la no chão antes mesmo de cair em solo após ser atingido por uma bomba jogada na cabeça dele por um rapaz insano durante uma manifestação no Rio de Janeiro contra o aumento das passagens de ônibus da cidade na semana passada mostrou-se bem poética.

Imaginamos em situação normal que quando somos atingidos por algo, principalmente na cabeça, deixamos de nos importar com as adjacências ao redor devido, logicamente, pela gravidade do acontecimento.

Acontece que com Santiago Andrade, então repórter cinematográfico da Band, foi diferente. Antes de cair no chão, quem alcançou o solo primeiro foi a máquina. A ação nos leva a reflexão do campo jornalístico, tais como:

- o profissionalismo de Santiago, pois mesmo sendo atingido o repórter tentou não fazer movimento brusco com as mãos na câmera. Como repórter cinematográfico sabe como ninguem o que não se deve fazer para produzir um material de imagens com qualidade. Preferiu colocar a câmera no chão primeiro, devagar, para depois se entregar ao solo.

- a condição financeira no jornalismo no Brasil. Os profissionais da área convivem com longas jornadas de trabalho, exposição a violência e baixa remuneração. Ao colocar a câmera no chão de maneira lenta, percebeu-se precaução no ato. Comprar outro equipamento custaria uma fatia significativa de seu ordenado.

Nem todos teriam esse autocontrole, ainda mais numa situação tão desesperadora.

Santiago Andrade morreu hoje no início da tarde.

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