terça-feira, 5 de outubro de 2010

Legal:destemido e ousado

Graças a desempenho em vídeos, jovem conseguiu votos pela internet para acompanhar de perto a Copa da África

    Carismático, determinado e desenvolto. Esta última característica deu a Anderson Reis Barbosa, o Anderson “Legal”, como é conhecido, a confiança necessária para vencer o reallity-show do canal a cabo TV Esporte Interativo em parceria com os cartões Visa.

    A promoção deu o direito ao ganhador potiguar de ir para África do Sul durante a Copa do Mundo no meio desse ano. Para atingir o objetivo do concurso, teve de cumprir o regulamento que era composto de duas fases. A primeira, de caráter estadual, foi produzir um vídeo declarando amor ao seu clube do coração, que no caso de Anderson é o ABC. Na segunda etapa, de nível nacional, um reallity show de 40 dias no Rio de Janeiro.


    Na capital fluminense, os 10 participantes brigavam por duas vagas na África e passaram por algumas provas de resistência como segurar uma bola pelo maior tempo possível, armar um bandeirão com a marca da TV Esporte Interativo no estádio do Maracanã lotado durante um jogo da Copa Libertadores entre Flamengo e Universidad Católica do Chile, bater pênalti para goleiros profissionais e pintar muros com a temática do futebol.

    Como a maioria dos programas do tipo, o “Go Brasil”, tinha exibição diária dos acontecimentos e provas em que os participantes eram sujeitos, alem, é claro, da tradicional eliminação que acontecia todas as terças-feiras. Antes disso, o programa tinha o seu “paredão”, chamado de “Na geral”, remetendo a um lugar incômodo do estádio para se assistir um jogo de futebol. Mesmo passando três vezes pela “geral”, os apelos pela internet para que os internautas votassem a seu favor para ficar fez com que Anderson ganhasse o concurso e o direito de ir à África do Sul ao lado do piauiense Xavier, segundo colocado, com tudo pago.

    O êxito na empreitada rendeu a Anderson “Legal” um contrato temporário com a TV Esporte Interativo de duração até o final da Copa do Mundo. O mesmo acontecendo com o jornal Tribuna do Norte, que assim que soube do resultado do concurso quis contar com os serviços do rapaz na atualização de um blog, o “Copa Legal”, inserindo fotos, textos e vídeos. Apesar de estar trabalhando para dois veículos, o tipo de cobertura teve linguagem e abordagem diferentes. Enquanto na TV Esporte Interativo Anderson deveria apresentar as cidades sede com sua respectiva cultura local, na Tribuna do Norte teve mais liberdade. Fazia os bastidores dos jogos, visão do torcedor e a sua própria.


    Anderson diz que gostou de todas as cidades, mas a melhor foi Porto Elizabeth, por acreditar que se identificou com o lugar. “Porto Elizabeth é bem parecida com o que nós estamos acostumados aqui no Nordeste, é litorânea, às margens do Oceano Índico, cosmopolita e tem um clima de paquera. Estava tendo um campeonato de surf que foi muito massa, sem contar que tinha muita mulher disponível”, disse.

    Legal visitou ainda as cidades de Johanesburgo, Durban e Pretória. A experiência rendeu boas histórias, como levar uma mordida de um bebê leão e assistir a todos os jogos do Brasil e alguns como França x Uruguai, Argentina x México e Itália X Gana, além de outros. Sobre as torcidas, Legal faz uma observação: “a torcida brasileira não é a mais fanática, passa longe. Os brasileiros que vão à Copa do Mundo são geralmente da elite, são empresários, pesquisadores e outros postos mais elevados. O fanatismo do nosso torcedor está no povão que vai aos jogos nos estádios brasileiros”, disse. As torcidas que o impressionaram foram da Argentina e da Holanda. “Os argentinos não paravam de cantar e os holandeses são muito calorosos, o que para mim os tornou imbatíveis nesse quesito.


    Sobre os pontos positivos e negativos do país que sediou a copa, Legal destacou alguns. Primeiro identificou o quanto o povo africano é hospitaleiro e alegre, principalmente se estiver acompanhado de música, sem contar que adoram os brasileiros. Estes eram o tempo todo presenteados com camisas, chaveiros e a maior de todas as gentilezas era colocar os brasileiros em camarotes VIPs de acesso restrito e até na concentração da seleção canarinha. Em troca, os africanos que receberam uma camisa da nossa seleção, ficaram eternamente gratos pelo presente, como se fosse o maior que podiam receber. Já o lado negativo de sua estada na África do Sul se deu com o transporte público. “Não tem linhas de ônibus como conhecemos no Brasil e metrô muito menos. A locomoção se dá em vans precárias e quem quiser ter uma rápida e confortável trajetória dentro da área urbana teria que andar de táxi, o que se torna pouco viável pelo preço absurdo que é uma corrida”. Outro problema encontrado foi a infra estrutura para internet. Não tinha muito ponto para rede sem-fio, cada um tinha que ter o seu modem, que comprando lá também era muito caro. “Internet era artigo de luxo”, disse.

    Também tiveram casos que não chegavam a ser problema, mas sim questão de adaptação. Por exemplo, com a comida. Tinha Mcdonalds em pontos isolados, mas era servido nos restaurantes a culinária local, de pratos como zebra, veado, mamute e babuíno. E por falar em animais, eles eram criados soltos em safáris e os visitantes que eram os aprisionados, caracterizando o processo inverso dos zoológicos tradicionais para que as criaturas vivessem livremente em seus hábitats naturais.

    Outra recomendação foi de tomar cuidado com os bairros pobres, como Soweto, em Johanesburgo, já que ao redor do local havia notícias de assaltos e roubos. Sem falar em perda de objetos pessoais e de trabalho da imprensa dentro até dos hotéis. “Muitos foram furtados, ouvi alguns casos conhecidos, mas não aconteceu nada com o pessoal da TV Esporte Interativo”, disse Legal. E para completar a adaptação a língua. Anderson Legal é professor de inglês no CNA e no Sesi, o que facilitou bastante a sua vida.

    Seu balanço geral da Copa foi positivo, a viu como exemplo de organização e modernidade. Aos que não puderam ir aos jogos por falta de ingressos ou simplesmente por não poder pagá-los, já que eram freqüentados basicamente pela classe-média, participavam das fun-fests organizadas em praças públicas com telões que apresentavam os jogos e shows culturais em seu intervalos. “Me impressionei com a África do Sul, são coisas de primeiro mundo, riqueza de cultura e tecnologia, o Brasil é muito atrasado e se pelo menos conseguir igualar o que foi a Copa de 2010 em 2014 já será um grande feito. Dou nota 8,5”.

    Anderson Legal agora espera deslanchar na carreira, mas vê muita dificuldade profissional, principalmente se tratando do estado do Rio Grande do Norte. “Infelizmente ter o sobrenome de algumas famílias tradicionais pesa para atuar na área. Para você ver, sou pai solteiro e ganho grana das minhas aulas de inglês, mas a comunicação é mesmo do que gosto”, disse Legal que já passou pela TV Natal, hoje TV União, fazendo reportagem para o Carnatal. Já fez reportagens de eventos no estado pela mesma TV União, e recentemente fez um jogo como repórter de campo pelo Campeonato do Nordeste pela TV Esporte Interativo.

    O objetivo mais próximo de Legal é a Copa 2014. “Natal vai ser uma das sedes e se a TVEI quiser alguma coisa por aqui, estou a disposição. Eles já me conhecem”, disse.

    Anderson é formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Potiguar (UnP) e atualmente está no 2ª período de Comunicação Social-Rádio e TV na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Público vai a Praça Cívica para ver Edgar Morin



    Educadores, sociólogos, comunicadores, estudantes de diversas áreas (que estavam em maioria), cientistas e até gente que não sabia o que estava acontecendo, presenciaram o estudioso francês Edgar Morin na Praça Cívica do Campus Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) na noite desta sexta-feira (17). E o interesse de especialistas de áreas diferentes em escutá-lo é justamente o que ele representa e ensina em suas obras: a conexão dos saberes para uma nova concepção de conhecimento que será conduzida por uma reforma na educação.

    A Conferência intitulada de “O Destino da Humanidade”, foi organizada pelo Grupo de Estudos da Complexidade da UFRN (GRECOM) – instalado por aqui no ano 2000 como primeiro ponto brasileiro da Cátedra Itinerante da UNESCO Edgar Morin CIUEM – com a missão de mostrar aos presentes que uma educação interdisciplinar pode ser a solução para enfrentar as incertezas e angústias do mundo. A intenção do professor Honoris causa da instituição potiguar é de formar um sujeito múltiplo para uma educação complexa, estabelecendo ligações entre as ciências para um saber não tão limitado a áreas específicas e assim formar um ser mais completo intelectualmente. Mas para isso, Morin enfatiza a necessidade de uma “formação do formador”, uma mudança educacional em todos os níveis para um melhor entendimento das coisas pela humanidade. “Técnica, Ciência e Economia estão muito livres e separados, há de ter um controle político e interno, principalmente da Ciência que se dividiu muito, dispersou os saberes e dificultou o conhecimento. Se alguma coisa não for feita vamos entrar num caminho sem volta!”; disse Morin ao se referir ao controle político-ideológico de muitos países do ocidente que instalaram a ignorância para conseguir o que querem.

 Sobre a Teoria da Complexidade

    A Teoria Científica da Complexidade é um ramo da ciência criado por Edgar Morin em 1970, que tem no livro “O Método” (1977) suas principais idéias divididas em seis volumes. A obra se fundamenta nas mudanças que ocorreram no século XX com o fim da bipolaridade de estadunidenses e soviéticos e da era técnica da informação. Para ele ao invés da fragmentação, propõe-se o conceito da complexidade, que é a união e diálogo dos saberes para construir uma nova consciência. E o diálogo com o futuro não para por aí: segundo Morin, a associação do passado com o futuro se dá também na forma de um pensamento complexo. “O conteúdo científico que todos sabem se tornou conhecido por uma mundialização, mas esse modelo é falho historicamente por ter ignorado regiões que poderiam contribuir e conduzir pra uma nova civilização”, disse. O pensador também acredita que um futuro menos sofrível será possível se o progresso for entendido não mais como uma lei histórica, assim os seres humanos não precisariam ficar brigando por qualquer tipo de razão.

Discursos de importância

    Estiveram também presentes na Praça Cívica, o Reitor da UFRN, Ivonildo Rêgo e a Doutora Maria da Conceição Xavier de Almeida, que é coordenadora do GRECOM e amiga pessoal de Edgar Morin. Para o Reitor a 4ª vez que o pensador visita a instituição só pode ser uma demonstração de carinho e de comprometimento com o aprendizado. “Próximo a completar 90 anos, Edgar Morin nos faz refletir até sobre essa questão, que não cansa de querer com sua intensa atividade construir um mundo melhor”, disse. Já coordenadora do GRECOM estava visivelmente emocionada por trazer uma pessoa tão importante à UFRN. “Estar aqui com a riqueza das idéias da educação e conhecedor do método que une pensamentos diferentes é uma honra para todos. A complexidade não deveria se encerrar na universidade mas sim chegar às praças”, concluiu.

Alunos e professores pró e anti-Morin

    O aluno do 6ª período do curso de História da UFRN, Márcio Gleybson Rodrigues da Silva falou como as idéias de Morin é aplicada na sua metodologia de estudo. “Morin propõe uma nova pedagogia de ensino, acabou com aquela idéia de que a História é pura e simples decoreba, é mais que isso, envolve toda uma contextualização e diálogo com o presente”, disse. Porém o mesmo elogio não é feito por alguns professores, como no caso de uma doutoranda em Ciências Sociais que não quis ter seu nome revelado. Ela fala que Edgar Morin não vê o lado social, apenas vislumbra um mundo que não existe e seus argumentos são poucos sustentáveis para solucionar as mazelas das sociedades. “Eu não gosto dele, assim como parte dos que estão aqui, mas tenho que assisti-lo porque até para criticá-lo tenho que conhecer suas idéias. Leia os setes saberes de Edgar Morin e compare com as obras de Paulo Freire que você vai entender do que estou falando. Paulo Freire é mais pé no chão e Morin tem argumentos frágeis”.


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

De experimentados aos que vão experimentar

    Para o último dia da semana de recepção aos calouros do segundo semestre do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Centro Acadêmico Berilo Wanderley (CABW) convidou profissionais que atuam na área para contar suas respectivas trajetórias na noite dessa sexta-feira (13) no auditório do Labcom. Atalija Lima, Érika Zuza, Yuri Borges e Lucimara Rett compuseram a mesa redonda, que foi mediada pelo professor Ruy Alckmin Rocha.


    Atalija Lima é jornalista formada desde 2004 pela UFRN e atualmente trabalha na rádio 89 fm. Confessa que nunca pensou em trabalhar no rádio, mas a convite aceitou. “Desde que entrei na faculdade a minha vontade era de trabalhar no meio impresso, mas como surgiu essa oportunidade legal, topei”, disse. Oportunidade não só profissional como financeira, ponto tão enfatizado por ela. “Não dá para negar que a questão salarial pesa na nossa área, na qual infelizmente se ganha pouco”.

    Já Érika Zuza começou na TV Universitária (TVU), passou pelo meio impresso, fez assessoria de imprensa, já deu aula na UFRN como professora substituta e hoje é repórter da Intertv/Cabugi, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Norte, e faz mestrado em TV Digital em São José dos Campos-SP. Tanta versatilidade é explicada por ela numa tentativa de busca em que o jovem experimente todas as possibilidades para que encontre uma forma de se sentir mais a vontade. “O campo da comunicação oferece muitas possibilidades, e talentos tem aos montes, basta experimentar o que estiver disponível, e assim encontrar aquilo que mais gosta. No meu caso foi a TV”.

    A definição daquilo que mais gosta, porém, não é o forte do jornalista Yuri Borges. Apesar de ter passado por diversos meios assim como fez Érika Zuza, ele viu vantagem em cada um. Seu primeiro estágio foi na Intertv/Cabugi como pauteiro, depois foi para o Diário de Natal, passou para uma revista e hoje é editor de conteúdo do portal Nominuto.com. Para Yuri Borges todos os meios tem o seu encanto. “A TV tem a imagem, o jornal impresso a objetividade, a revista um maior tempo para se fazer uma matéria mais aprofundada e a internet dá a instantaneidade”, disse.

    Momentâneo é também o processo de comunicação. A publicitária e professora da UFRN Lucimara Rett explicou para os calouros que a comunicação era feita antes de “um para um”, passou e “um para muitos” e agora é de “muitos para muitos”, o que dá a liberdade das pessoas de criar e produzir, além da importância das redes sociais nesse processo. Lucimara somente descobriu a área da comunicação quando estava nela. Era técnica em eletrônica na TV Vanguarda de São José dos Campos-SP quando precisaram de alguém para fazer edição de vídeo, ela topou e a partir daí descobrira o que queria. Largou a Engenharia para fazer Comunicação. Trabalhou com Marketin durante 12 anos na própria TV Vanguarda, fez especialização até passar na prova de admissão da UFRN.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

As possibilidades de se fazer um jornalismo público

Professor especialista de comunicação organizacional em relações públicas deu palestra na última quarta-feira (11) no auditório da COMUNICA da UFRN sobre o desafio que a mídia terá daqui em diante com o público


    Se você já teve a impressão de estar assistindo TV ou lendo um jornal e mesmo assim não se sentir inserido naquilo que está sendo dito, acredite, não é apenas um problema seu. É uma tendência que tem a mídia como principal responsável. Ela pouco despertou à cidadania e dar voz a quem não tem. Mais que isso, ao dar uma notícia não se contextualiza com o ambiente em questão e não levanta questões de interesse direto da sociedade como por exemplo o quanto o orçamento familiar pode ser comprometido com aquele sobe-desce de números na economia ou o custo e a demora daquela grande obra que o político apresenta como inconteste, e ainda fiscalizar o porquê a praça feita com tanto murmúrio está sem manutenção . Ou seja, não basta apresentar os fatos, mas indagar em que eles vão interferir na vida das pessoas.


    Foi nesse contexto que o professor Paulo Celestino da Costa Filho, especialista em comunicação organizacional em Relações Públicas pela Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), falou sobre a possibilidade de se fazer um jornalismo cada vez mais público com o advento e a liberdade que as novas tecnologias disponíveis estão dando para os cidadãos serem cada vez mais participantes na construção de civilidade, sem se desgarrar da qualidade da informação e dos princípios básicos do bom jornalismo, como: checagem, pesquisa e responsabilidade. “O Jornalismo Público e o Futuro da Informação – A nova relação entre mídias e públicos”, foi sua tese de mestrado em 2003 e mostra como surgiu, o caso brasileiro e como está sendo usado o jornalismo público.

A origem do jornalismo público – o momento norte-americano

    No início da década de 1990, um grupo de jornalistas (chamados de “jornalistas conscientes”) e especialistas de algumas universidades ficaram incomodados com a crise que a mídia estava vivendo e decidiram se reunir para pensar e analisar como essas organizações estavam tratando seus conteúdos jornalísticos.

    O resultado, como era esperado, mostrou uma mídia despreocupada com conteúdos a serem apresentados, deixando claro que a falta de qualidade na programação afetava o desempenho de algumas emissoras. Nos meios impressos, o pragmatismo do lide e da pirâmide invertida tirava a criatividade dos jornalistas, deixando textos cristalizados, já que as principais informações eram possíveis de serem lidas em manchetes ou em rápidas passagens pela notícia sem dar valor aos detalhes, estes que na maioria das vezes revela o que está escondido.

    Com isso, declinam os números de leitores e assinantes de jornal nos EUA, fruto do interesse da população por algo diferente do habitual. O que rendeu a necessidade de se fazer um jornalismo não apenas público, como também cívico.

Motivações do jornalismo cívico

    Esses pesquisadores identificaram seis tipos de crises do jornalismo. A saber:

- econômica: a baixa qualidade afetou a relação entre empresa-anunciante, já que o número de pessoas que compram jornais vem caindo.

- tecnológica: mudança de paradigma da mensagem. Passou da direção “um para muitos”, para “muitos para muitos”.

- política: a mídia mais como problema do que solução. O falso discurso da imparcialidade se faz identificar a baixa adesão política, mostrando pouco engajamento cívico.

- espiritual: dizem saber muito bem do que são contra, mas não demonstram o que são a favor. A rede de televisão CNN mostrou a primeira guerra televisionada da história (Guerra do Golfo) com excessos de abusos dos jornalistas a mostrarem apenas os momentos em que os EUA estavam vencendo a guerra, quando, na verdade, estavam perdendo.

- existencial: dúvida se nivelar a programação por baixo seria melhor forma de unificar a audiência

- intelectual: conceitos-chave clássicos do jornalismo sendo questionados, como por exemplo, “quanto mais informação melhor” e o lide.

O Jornalismo Público no Brasil

    Dez anos depois de aparecer nos EUA, chega o jornalismo público no Brasil. Mas, não seguiu a cartilha norte-americana, não está conseguindo ser pública, muito menos cívico.

    A razão é por vários motivos. Primeiro por conta da legislação brasileira que trata da Comunicação Social. Ela dá brechas na lei para que os horários de produção de conteúdo voltada para as comunidades sejam flexíveis. Com isso, há uma preferência pelo lado comercial durante boa parte da programação das TVs privadas. Estas que tiveram suas concessões de Rádio e TV concedidas durante a chamada “farra das concessões” a amigos políticos em todo o Brasil do então Presidente da República em 1988, José Sarney.

    O outro problema é o questionamento do que são realmente as TVs públicas no Brasil. Atualmente são duas: TV Cultura e TV Brasil. A primeira, atualmente e crise e pertencente a Fundação Padre Anchieta, de São Paulo é acusada de não fazer escolhas políticas muito corretas e, assim, não ser livre no seu modelo de gestão. Já a TV Brasil, alguns dizem parecer mais um porta voz do governo do que do povo, passando a ser pública para ser estatal.

A Linguagem absorvida – as ONGs

    Para exemplificar como o jornalismo público está sendo usado, peguemos o caso das ONGs. Elas estão absorvendo a linguagem jornalística para produzir conteúdos. Assim, deixam de ser meras fontes e passam a ser mediadoras. Criam sites, jornais, newsletters e algumas até fazem reportagens da própria instituição.

Novas Ecologias da Informação

    Está havendo deslocamentos da produção e emissão de informação. A midiaesfera (blog e microblog) se ampliou, sendo muita gente capaz de disseminar conteúdos.

    Também está havendo deslocamento da recepção. Não é mais necessário ficar na frente da TV com hora marcada para ver o que deseja. Os downloads de vídeos dão ao usuário a flexibilidade de baixar o conteúdo e vê-lo a hora que quiser.

    Em qualquer tempo e lugar será possível dar o “furo”. É bem capaz que uma notícia ou fato seja dado em primeira mão por um cidadão, leitor, espectador. O desafio é achar notícias locais valiosas em um mundo que as mensagens muitas vezes são unilaterais.

Fim do Jornalismo?

    Não. Apesar da tendência ser um jornalismo público/cívico/colaborativo com comprometimento do desenvolvimento local e com a realidade social, o agentes públicos e jornalistas devem atuar juntos. Até para valorização deste último, deve-se criar mecanismos de interação entre os detentores de informação,como por exemplo em forma de trocas de mensagens eletrônicas, dando voz ao cidadão reivindicar para que o jornalista vá no local conferir . Outra maneira de interação é criar espaços para a sociedade, um telejornal pode abrir um tempo diário para que as pessoas enviem fotos, vídeos e textos para serem exibidos como flagra, notícia, alerta ou convite para ir até o local para conferir de perto.

    Assim nada irá se perder. O cidadão pode fazer a notícia e o jornalista pode checar, analisar e conferir a veracidade. Não existe fórmula pronta, mas deve existir comprometimento com a informação bem feita, tão perdida nesses tempos de imagens e pressa. Agora é experimentar, e muito.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ponto para os Marqueteiros de campanha





    No primeiro debate da TV aberta entre os presidenciáveis, jornalistas e espectadores visando as eleições de outubro desse ano, já era esperado um confronto morno devido a falta de propostas sólidas. A estratégia, então, foi esperar explorar os defeitos dos adversários e aperfeiçoar aquilo que lhe falta.



    José Serra (PSDB) certamente foi orientado da dificuldade de Dilma Roussef (PT) diante das câmeras, e assim que tinha oportunidade atacava a petista para forçar uma resposta da adversária e a mesma se complicar na desenvoltura da réplica. Em partes, deu certo. Durante boa parte do debate vimos uma Dilma nervosa, em algumas partes gaguejando e se enrolando quando tinha que se colocar de forma clara. Depois, com o tempo, ela ficou mais tranqüila.


    A estratégia da própria Dilma era de se guardar. Se expor não seria interessante, já que ela está na frente das pesquisas do Ibope. Tinha mesmo era que levar no “banho Maria” para não se complicar e falar o que não deve. Afinal, seus votos estão garantidos e fazer o inverso a faria perder seus fiéis eleitores (ou do Lula?). Como já dito, depois de se acostumar com a câmera que ela ainda não tem experiência, conseguiu ficar menos tensa.

Marina (PV), sem comentários! Nem parecia estar no lugar.


    Mas quem roubou a cena foi Plínio Arruda Sampaio (Psol). Como pouco conhecido que é, tomou o lugar de Marina na despolarização do debate Serra-Dilma ao soltar piadas, apelidar Marina de Eco-capitalista e dizer que desigualdade existe até em debates. Ora, ele tinha mesmo era que aparecer. Me lembrou o velho Enéas quando disputava a presidência e falava em projeto de bomba atômica. Enfim, Plínio foi a graça do debate e conseguiu seu espaço nos próximos; no dia seguinte tinha rodas o cercando nas ruas o cumprimentando.


    Estratégias a parte, todos saíram ganhando, inclusive os marqueteiros dos candidatos. Assessoraram bem seus clientes e garantiram a expectativa de discussões mais acaloradas nos próximos debates.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A sacanagem da Globo

    Nesta quinta-feira (5), acontecerá o primeiro debate entre os presidenciáveis da TV aberta brasileira, na Band, às 22hs. A expectativa para apresentação de propostas dos candidatos e seus respectivos desempenhos contra perguntas embaraçosas de diversos seguimentos da sociedade e divergências entre os adversários é garantia de boa audiência.



    Mas ela não será total. Considerando que existe uma tendência da Globo querer ser exclusiva em tudo, não colocar no ar nesse dia o debate (vai ter seu dia) e, existir um grande número de brasileiros fanáticos por futebol, a emissora do plim-plim, excepcionalmente, vai transmitir a semi-final da Copa Libertadores da América entre São Paulo e Internacional, diretamente do estádio do Morumbi, em São Paulo.

    O discurso da emissora de Roberto Marinho logicamente vai ser o da importância do jogo e que não poderia deixar de transmiti-lo. Mas não é bem assim. Vários jogos decisivos, da própria Libertadores, nunca foram transmitidos em dia de quinta-feira, totalmente fora da grade de programação. O que vai acontecer, mais escancarado dessa vez (as novelas já fazem um papelão todos os dias), é o de-serviço desse veículo à sociedade brasileira ao não deixar livre a concorrente radiodifusora discutir com todos, o futuro de nosso país.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Jornal conhecido apenas pela velha guarda, desconhecido pela nova geração e, infelizmente, ignorado pela mídia


                             


             


    No primeiro ano de faculdade na UFRN, foi pedido a todos da turma que lessem o livro “A Arte de fazer um jornal diário”, de Ricardo Noblat, afim de que servisse de base para uma prova na disciplina de Introdução ao Jornalismo. Alem de o livro trazer muitas dicas de como realizar o ofício, na parte final há uma cronologia dos principais acontecimentos do jornalismo no Brasil e no mundo. Dentre eles, uma pequena nota que o Jornal do Brasil (JB), do Rio de Janeiro, foi o primeiro jornal impresso brasileiro a ter conteúdo também na internet, em 1996. Então pensei: “Esse deve ser um puta de um jornal, se em 96 era assim, imagina hoje. Mas porque não se fala muito nele como nos badalados Folha de São Paulo e O GLobo?”. Mal sabia que o JB já estava em declínio com uma péssima administração e conseqüente crise financeira que beirava os 800 milhões em dívidas fiscais e trabalhistas, e que um conhecimento maior sobre ele se daria, somente, com o pronunciamento oficial de que o JB a partir de primeiro de setembro desse ano atuará ironicamente apenas no mundo que tanto propagandeou quando era impresso, o virtual. Depois dessa notícia, poucos órgãos de imprensa nos apresentaram a robusta história do falecido jornal, sua importância para o país durante muito tempo e os notáveis membros que passaram por essa instituição.


História


                        
    Em meio a agitação política no nosso país, que deixava a Monarquia para ser República, Rodolfo Dantas funda o Jornal do Brasil em 1891, em defesa do regime Liberal republicano. O periódico teve como diretores de redação os abolicionistas Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa. Em 1905, com a República já consolidada, não haveria mais o porque da coisa ser tratada como se fosse nacional e única, já que cada estado poderia escolher seu governador; então o JB passou a ter como linha editorial o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, o que rendeu o apelido de “jornal da cidade”, esta com sua característica de carnavalesca, também deu o apelido ao JB de “jornal do carnaval” ao fazer essa cobertura da tradicional festa carioca.



    A primeira crise do JB se deu ainda antes da primeira metade do século XX. Para contorná-la, o jornal cedeu a publicidade de tal forma que passou a colocar os classificados em primeira página, sendo apelidado de “jornal das cozinheiras”. Mas o salvamento mesmo, e seu apogeu se deu quando houve uma reforma em 1956, mudando o jeito de se fazer notícia. Saem os fios que separam as colunas dos textos, diminuiu o espaço dos classificados e fotografia passou a ser publicada em primeira página. Dessa forma, o JB passou a ser o jornal modelo e copiado por todos os outros entre as décadas de 1950 e 1970. Ana Arruda Callado, ex-repórter do JB, contou que os empregados gostavam dos jornais como se fossem deles.“Eu era interpelada por repórteres de todo país, ávidos por saber detalhes sobre os bastidores do jornal, o segredo era nosso romantismo”, disse. Já Ricardo Noblat, que trabalhou nas sucursais do JB em Recife e Brasília, disse que o Jornal do Brasil era uma meta que a maioria dos jornalistas fora do eixo Rio-São Paulo aspirava. “Nessa escola todos gostariam de trabalhar”, contou.


                       
No início da Ditadura Militar, o JB ainda tinha sua independência. Sabendo do perigo, consegue informar aos leitores a dureza da censura do AI-5 com sutilezas, sem que os militares percebessem. Porem, logo depois, após de “escolhas” políticas desastrosas de seu dono, Nascimento Brito, mesmo contra a opinião de seu editor-chefe, Alberto Dines (que logo depois foi afastado por “indisciplina”), o jornal começou seu colapso. Primeiro foi se meter com os generais. Nascimento Brito apoiou o Ministro da Casa Civil de Garrastazu Médici, Leitão de Abreu, para a sucessão daquele contra Geisel. Este venceu e o dono do JB ficou “na mão” do novo presidente, com medo de perder as concessões de dois canais de TV. Então cedeu ao encanto do Ministro da Economia do Governo Geisel, Delfim Neto, que incentivou o JB a se endividar em dólar ao pegar sucessivos empréstimos para comprar novas máquinas e construir uma nova sede, uma obra faraônica na Av.Brasil para abrigar todas as marcas do grupo num momento não muito bom para a economia brasileira. Sem contar na interferência
editorial dos militares sobre o JB. Outras lamentáveis escolhas políticas do JB foi aliar-se a Maluf, Collor de Melo e, mais, recentemente, ao casal Garotinho.

A Boa Briga com O Globo


    Antes e até durante boa parte da crise do JB, o Rio de Janeiro contava com, pelo menos, sete jornais de boa vendagem: O Jornal, Última Hora, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, O Globo e Diário Carioca. Quando boa parte deles se foi, não estavam morrendo sozinhos, levaram o jornalismo junto, pois quanto mais possibilidades o leitor tiver de ver diferentes visões, maiores são as escolhas. Muitos jornais quer dizer democracia. Poucos é disputa pelo poder e sinônimo de povo enjaulado. "O leitor perde. É melhor uma cidade com muitos jornais do que com poucos jornais. Isso é melhor em qualquer circunstância, em qualquer lugar do mundo", advertiu Ancelmo Gois, atual colunista do JB e apresentador do programa De Lá pra Cá, da TV Brasil.


            


    Restando apenas o JB e O Globo, o Rio de Janeiro ficou órfão dos contrastes. Mas nem tudo ainda estava perdido. Esses dois jornais travaram boas brigas por audiência que possibilitou ao carente público um novo impulso, já que a disputa era por um jornalismo de qualidade.

    Nascimento Brito foi o primeiro publisher a contratar uma consultoria, a Montreal, para fazer um trabalho de reengenharia total. A empresa organizou-se, a redação organizou-se, a busca de qualidade tornou-se prioritária. Graças a isso o jornal ganhou espetacularmente os primeiros rounds no confronto com O Globo. Sem qualquer suporte de TV.

    Há exatos 38 anos, O Globo publicava um editorial na primeira página assinado por Roberto Marinho intitulado "O Dia que Faltava", rompendo o acordo de décadas que deixava o domingo para os matutinos e as segundas-feiras para os vespertinos. Era a declaração formal de guerra depois de tensas e demoradas negociações entre as duas empresas mediadas pelo deputado Chagas Freitas e o banqueiro José Luís Magalhães Lins.

    O derradeiro confronto jornalístico no Rio talvez tenha se travado no início dos anos 70 (ou fim dos 60) quando Roberto Marinho decidiu que O Globo não poderia ficar confinado ao esquema de vespertino e passou a circular aos domingos. Em represália, Nascimento Brito decidiu que o JB invadiria a segunda-feira. Encontro de gigantes, disputa de qualidade. Mesmo com a ditadura e a censura como pano de fundo.

A pífia cobertura da mídia




    A imprensa foi fria ao comentar o fim da parte impressa do JB. Acredito que não por falta de qualidade, já que material é o que não falta e o veículo tem sua importância para o país. Foi por omissão mesmo. Salvo apenas uma boa recapitulação do Observatório da Imprensa, da TV Brasil, e uma rápida nota do Jornal do SBT da noite. No mais, parece que nada ocorreu, tem gente que nem sabe que existe ou existiu o JB. Uma parte da história do Brasil foi ignorada, agora construída por uma emissora de um Bispo e outra que dita comportamentos. Alem de deteriorar com a derradeira instituição iluminista.


    A questão não é entregar uma concessão pública a um particular. Mas como geri-la. Um empresário da comunicação que não é da área, não lê jornais e os detesta, ou seja, aquele que não gosta do que faz, tem grande chance de ver seu negócio ruir. Ao contrário desse exemplo, vejamos o de Rupert Murdoch: jornalista por formação, acompanhou de perto as transformações de suas empresas de comunicação e o resultado é o sucesso de bilhões de dólares.O elefante branco do JB atropelou os escrúpulos e entregou o jornal a quem quer apenas fazer uma economia extra. Nelson Tanure anunciou o fim do Jornal do Brasil com um anúncio e aos assinantes entregou uma circular assinada por um preposto.


    Não teve luto, nem luta. O jornalismo morno e sem disputa faz bem para os sobreviventes da imprensa-celebridade, que ignoram o seu ofício ao fingir um acontecimento como o fim do JB. Preferiram o medo que seus chefes impõem.


“A imprensa abdicou das emoções porque aceitou transformar-se numa indústria tão transcendental quanto uma fábrica de biscoitos” – Alberto Dines.

Quem passou pelo JB


- Os pernambucanos Joaquim Nabuco (Diretor), Barbosa Lima Sobrinho e Ricardo Noblat (Repórter)
           

- Ruy Barbosa (Diretor)


- Alberto Dines (Editor-Chefe)


- Carlos Drummond de Andrade (como colunista)


- Chico Caruso


- José Sarney (correspondente no Maranhão-demitido em 1962 porque só mandava despachos que o favoreciam como político)




http://jbonline.terra.com.br/   - Para quem quiser ver o JB Online